Transfundir, é um verbo!

Transfundir, verbo pronominal que significa: transformar-se, tornar-se outro: já não é o mesmo homem; transfundiu-se.

Não me recordo do momento exato em que eu quis fazer desse significado a minha vida. Afinal, quem nunca quis se transformar? Tornar-se outro? Ainda mais quando não fazemos parte do sistema. E eu, nunca fiz.

Sempre que tento puxar minhas memórias afetivas para saber o momento exato que percebi ser um menino, minha cabeça nunca me leva para quatro anos atrás, que foi quando eu descobri mais profundamente sobre a transexualidade. Acho que é normal das pessoas trans acabarem buscando indícios na infância para ter mais relevância naquilo que sentimos. Isso acaba sendo um caminho sem volta, mas necessário. Quando você se der conta, tem mais memórias caminhando dentro de você e buscando um jeito de sair do que você imaginava. Lembro como hoje, a memória de quando eu tinha uns sete anos e chorei muito porque eu queria um carrinho, e eu sempre pedia para as pessoas e ninguém me atendia. Até que um dia meu tio chegou com um pequeno caminhão de plástico e me deu de presente – acho que aquele foi um dos momentos mais marcantes da minha vida – porque eu, logo eu, péssimo de memória e bom com datas fui lembrar justamente daquele momento. Bom, eu não sei. Assim como não sei porque nunca gostei de bonecas, e sempre chorava porque queria brincar de bola ou de gude, e morria de inveja quando os meninos da rua soltavam pipas e eu ficava olhando sem poder fazer o mesmo. Lembro que das poucas vezes que eu tenho lembranças brincando de boneca, eu era o pai delas e o marido das minhas primas. Isso é engraçado, porque eu sempre olhei para todas as lembranças que eu tenho com vergonha, com medo de alguém saber o que eu guardava no meu passado e nas minhas memórias e pensassem que eu era louco.

Eu cresci sendo a garota esquisita da escola, a pessoa de figura masculina que todo mundo tem certeza que é sapatão por não performar a feminilidade. Durante meu ensino fundamental, foi um dos períodos que a escola foi mais cruel comigo. Eu sempre era zombado, sempre sofri perseguições e ganhei apelidos, por muitos momentos quis mudar e tentar me encaixar para não sofrer mais aquilo, e assim fiz até o final do ensino médio. Não me orgulho de muita coisa feita, mas se ser LGBT hoje já é difícil, imagina há quinze anos atrás, quando eu não sabia nem que alguém seria capaz de me entender um dia. Mas a escola nunca foi o lugar mais cruel para mim, os meus maiores traumas sempre foram familiares. Eu posso afirmar que nunca entendi porque eu sempre fui perseguido dentro da minha própria família, e eles sempre fizeram de tudo para me destruir de alguma maneira. Por muito tempo eu me senti culpado por não fazer parte do sistema e não ser igual a todo mundo. A gente sempre acaba se culpando por ser quem a gente é, ainda mais quando se é criança e o mundo inteiro te diz o quanto você está errado.

Hoje em dia às vezes ainda acabo me culpando baixinho em silêncio na tentativa de justificar os atos alheios. Mas seria eu o culpado do preconceito do mundo e da ideia de que todos os corpos são iguais? Por nascermos com uma ideia já formada daquilo que somos, daquilo que vamos amar e como vamos agir. Seria eu o culpado por não seguir isso? É como se não houvesse sujeito, somos todos programados. O sistema tenta nos moldar, e ser trans é fazer parte de uma rebelião. Iniciei o meu processo para tornar-se outro, mas na verdade esse outro é exatamente quem eu sempre fui.

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