A solidão dentro da mudança.

Quando se fala de solidão, ninguém enxerga o abandono que ocorre durante a transição de ser o que as pessoas esperam de você, e ser quem realmente você é. Falo isso como a pessoa solitária que se tornou ainda mais sozinha desde que se encontrou.

Ser homem trans é muito difícil, não falo só pelos processos dentro da gente, mas também das mudanças que ocorre ao nosso redor. Desde que me entendi homem trans, menos amado eu me sinto e mais abandonado eu fico. Me vejo muito a margem da sociedade, porque não me vejo mais fazendo parte de nenhum ciclo social. A gente até ouve falar da solidão e do processo de abandono que ocorre com as pessoas trans, mas é mais difícil e doloroso sofrer isso na pele.

Muitas vezes me pego me perguntando se as pessoas tem vergonha de mim ou é somente coisa da minha cabeça. Sabe quando pequenas coisas viram turbilhões? É assim que eu me sinto, qualquer atitude/movimento das pessoas, viram um turbilhão de inseguranças em mim. Às vezes eu acho que eu me maltrato demais, às vezes eu acho que ninguém enxerga aquilo que não existe quando se trata de preconceito. Então porque é tão difícil amar ou fazer parte da vida de uma pessoa trans? Ou realmente o problema sou eu? Porque muitas vezes eu me vejo em situações, que transbordam coisas dentro de mim que me fazem acreditar que era melhor eu não existir. Sei que as pessoas não entendem muitas vezes os processos que as pessoas trans passam, mas eu continuo sendo uma pessoa normal, só diferente das outras como qualquer outro.

Não sei se esse desabafo vai fazer sentido, mas é como eu me sinto. Desde que me entendi trans, não conheci mas ninguém que esteve do meu lado, seja como amigo ou amorosamente. Sempre passei por vários abandonos, mas durante esse processo de entendimento de quem eu sou, eles se tornaram mais fortes e mais constantes. Eu sei que ninguém é obrigado a fazer parte da vida de alguém, mas é muito doloroso você observar que as pessoas nem se quer se permitem em te conhecer, como se você fosse um doente, como se você não fosse bom o suficiente ou merecedor de algo.

Por muito tempo segurei esse desabafo, na verdade, nos últimos quatro anos por pensar que talvez seria coisa da minha cabeça. Mas não, eu não estou doido… Há sim um preconceito velado disfarçado ou escancarado em cada dia que eu não conheci ninguém durante a faculdade durante esses quatro anos, ou nunca conheci ninguém de Salvador durante todos esses quatro anos , ou nunca tive uma vida amorosa ou alguém que me assumiu durante a minha vida inteira, ou nunca vivi mais que a maioria das coisas que casais fazem, ou nunca tive um amigo para conversar ou sair, nunca fui convidado para sair com ninguém, ou todas as pessoas que conheci de alguma maneira durante toda a minha vida, me viraram as costas ou sumiram principalmente durante esse tempo. Então sim, eu sei o que eu passei e passo até chegar ao ponto de escrever cada palavra desse texto. Não sei se vou desistir em algum momento, eu até agora tentei ser forte. Não sei se alguém irá ler isso um dia, mas se isso acontecer: tenham mais carinho com as pessoas que lutam para ser o que são, e que passam por cima dessa sociedade maldita para tentar ter o mínimo de felicidade.

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