A desumanização do diferente.


A desumanização de pessoas transgênero é uma realidade persistente e alarmante no tecido social. Apesar dos avanços legislativos e do crescimento da visibilidade trans em alguns espaços públicos, a transfobia estrutural ainda se manifesta de maneira profunda e cotidiana, refletindo-se em exclusões, violências simbólicas e físicas, e na negação sistemática da dignidade humana dessas pessoas.

No campo social, a desumanização ocorre de formas diversas. A mais evidente está na violência direta – verbal, psicológica e física – sofrida por pessoas trans em espaços públicos e privados. Mas toda essa discriminação, invisibilidade e exclusão social não é um desafio novo para as pessoas trans, temos várias histórias de quem sofreu ainda mais enfrentando uma sociedade conservadora marcada por preconceito e violência.


Hoje vamos abordar a correlação entre Boys Don’t Cry e “Balada de Gisberta”.
Tanto o filme Boys Don’t Cry como a música “Balada de Gisberta” são obras de arte que têm como ponto de partida histórias reais de pessoas trans que sofreram brutal violência e discriminação. Cada uma, à sua maneira, denuncia a intolerância e a exclusão social, colocando em foco o preconceito enraizado na sociedade e o sofrimento daqueles que desafiam normas rígidas de identidade de género.

Ambas as obras são profundamente emocionais e apelam à empatia. Boys Don’t Cry utiliza uma abordagem cinematográfica intimista e angustiante, revelando as vulnerabilidades de Brandon e a brutalidade que enfrentou. O filme não poupa o espectador à violência, precisamente para que se compreenda a gravidade da transfobia.

Por sua vez, “Balada de Gisberta” opta por um tom lírico e triste. A música é construída como uma homenagem, onde se ouve a voz da dor e da perda, mas também uma tentativa de redenção simbólica. A frase “jazia Gisberta” ecoa como um grito silencioso contra a indiferença, evocando compaixão e memória.

Ambas as histórias revelam como a discriminação de género se cruza com outras formas de exclusão. Brandon era jovem, pobre, e vivia numa comunidade conservadora. Gisberta era trans, sem-abrigo, estrangeira e portadora de HIV — uma figura marginalizada em múltiplos níveis.

Essas camadas de vulnerabilidade tornam os casos ainda mais trágicos, pois mostram como a sociedade não apenas rejeita o que é diferente, mas permite — e muitas vezes legitima — a violência contra os mais frágeis. Tanto o filme quanto a canção colocam o espectador/auditor diante da responsabilidade de refletir sobre essa realidade.

Boys Don’t Cry e “Balada de Gisberta” são mais do que retratos de tragédias — são formas de resistência artística. Mostram histórias reais de violência transfóbica, ambas denunciam o preconceito estrutural e convidam à reflexão. São também homenagens póstumas que resgatam a humanidade das vítimas, contra a tentativa de apagamento das suas existências, lembrando-nos que, por trás das estatísticas de violência, existem pessoas reais, com sonhos, medos e desejos — como Brandon, como Gisberta.

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