O meu egoísmo tão egoísta de ser homem trans e tentar amar.

A solidão às vezes me sufoca e há dias em que o silêncio faz mais barulho do que qualquer multidão. É estranho desejar tanto algo tão simples: ser escolhido, mas na vida real ser um homem trans à procura de conexão emocional e física pode parecer um labirinto emocional sem saída — cheio de muros invisíveis, silêncios desconfortáveis e rejeições disfarçadas de “preferência”.


Já tentei fingir que não me importo, mas a solidão tem um jeito sádico de nos fazer questionar o nosso valor. E assim entramos num ciclo perverso: cada rejeição, cada afastamento sem explicação, vai corroendo muito além do ego e afeta a nossa auto estima, a autoconfiança e, inevitavelmente, a saúde mental.

A masculinidade trans vem quase sempre com uma batalha silenciosa com o próprio corpo. E quando somamos isso à rejeição constante no campo amoroso, o resultado é brutal: muitos de nós começamos a questionar se merecemos ser amados como somos. Começamos a pensar que independente daquilo que nos tornamos vivemos numa narrativa de desejo que nunca foi pensada para incluir-nos.

Criar conexões emocionais e físicas nessas condições é conviver com a constante sensação de que, mesmo quando me amam, não é por inteiro, como se eu fosse sempre quase. Quase o suficiente. Quase digno. Quase amável. E isso não é só sobre querer afeto, é sobre tentar recebê-lo sem anular partes essenciais de quem eu sou.

Sou parte de uma minoria — e isso pesa. No corpo, no peito, nas relações. Cresci aprendendo a me observar demais, a me medir antes de existir. Porque um passo fora da linha pode ser o suficiente para que alguém me descarte. Como já fizeram. Como ainda fazem.

Ser parte de uma minoria, às vezes, é ser treinado para se acostumar com a ausência. Com o quase e isso machuca de um jeito que não se explica fácil. Porque não é só solidão. É o eco de anos tentando me encaixar num lugar onde ninguém nunca me reservou espaço.

E mesmo assim — mesmo cansado, mesmo inseguro, mesmo me fechando cada vez mais — ainda tem uma parte de mim que insiste. Que espera. Na esperança que homens trans também recebam carinho, toque, presença, reciprocidade. Porque queremos sentir que podemos ser amados sem rodapé explicativo, sem termos que convencer ninguém de que valemos a pena e sonhando com o dia em que alguém vai olhar para mim, sem medo, e dizer: é aqui que eu quero ficar.




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