Hoje é um dia cinza e nublado, com chuvas intensas. Mas, para mim, todos os dias são assim. Faz tempo que não enxergo o céu azul ou aquela sensação de paz que um pôr do sol no Farol da Barra pode trazer.
Hoje, pensei em desistir mais uma vez — mas resolvi escrever.
Como pode uma pessoa ter a vida inteira pela frente e, ao mesmo tempo, não ver futuro?
Eu me sinto assim: vazio. Um vazio que me corrói por dentro desde que me entendo por gente. Só agora resolvi colocar isso para fora — e, mesmo assim, me sinto pior. Culpado.
Afinal, eu tenho um teto, dois braços, duas pernas e a possibilidade de mudar de vida amanhã, de um milagre acontecer e todos os problemas simplesmente irem embora.
Mas por que não sinto essa possibilidade?
Por que sinto que fracassei, mesmo sem ter tentado nada?
De uma coisa eu sei: hoje decidi que não pedirei mais ajuda. Vou me deixar afundar ou tentar nadar sozinho.
Todo mundo tem problemas; eu não sou especial nisso.
Então, por que deveria chamar a atenção do mundo para a minha dor?
Minha dor não é maior que a dos outros. Eu não sou especial assim.
Afinal, sou só mais um — mais um vivendo um dia cinzento dentro da solidão da depressão, com problemas familiares e financeiros, olhando para os lados e achando que não há saída.
Quantos não se sentem assim também?
Eu não sou especial. Minha dor não é torturante.
Aliás, ela está aqui há tanto tempo que já se tornou parte de mim.
Mas, como eu disse: hoje pensei em desistir, mas resolvi escrever.
Amanhã? Não sei.
Só sei que minha vida parou de fazer sentido há muito tempo, e esse fio de fé e esperança a que me apego a cada dia fica menor.
Eu não quero magoar as pessoas — embora eu tenha poucas para magoar.
Sei que serei uma lembrança pequena, porém intensa, para alguns.
Talvez me lembrem como o “coitado” — aquele que sabia chegar e sabia sair, sempre calado, sempre solitário, sempre sozinho.
Aquele que ninguém odeia, mas que ninguém ama.
Que não chama atenção, mas também não passa totalmente despercebido.
Acho que, no fim, penso mais nos outros do que em mim — e, de tanto fazer isso, chegará o momento em que não pensarei em nada.
Já não me importo mais.
Morri tantas vezes no meu quarto, calado, sozinho…
Assim como já desisti tantas vezes, gritando por socorro, tentando chamar atenção.
No final, não faz diferença: calado ou gritando, enquanto esse vazio permanecer, serei apenas um casco.
Um casco oco, que vive dias nublados todos os dias, simplesmente porque já não consegue enxergar cores na vida.
