Inacessível.

Acho que 2025 foi um dos anos mais desafiadores da minha vida. Não apenas porque o quadro de depressão se agravou, mas porque senti, na pele, o quanto eu sou um nada na vida das pessoas.


Hoje escutei coisas horríveis — e muitas delas eu sei que são verdade. Ouvir o quanto as pessoas não me aguentam mais. O quanto sou visto como um ser humano desprezível por ter depressão, por deixar transparecer que não estou bem. Ouvi que todos estão com raiva de mim simplesmente porque eu não consigo estar bem.
E isso só confirmou uma certeza antiga: sempre estive sozinho. E, não importa o que eu faça, sempre será assim.


O pior de tudo é ter minhas vulnerabilidades lançadas contra mim como armas. Ser tratado como desprezível por querer existir do meu jeito, por ser quem eu sou, por ser um homem trans.


Hoje tive a certeza de que fui abandonado pelas pessoas — e por Deus — desde o momento em que nasci. E pensar que, nos últimos meses, eu ainda me agarrava a uma fé, a uma esperança que, no fundo, nunca passaram de ilusão.
Eu não sou nada. Minha dor não comove; provoca repulsa. Não posso demonstrar o que sinto, tampouco pedir ajuda. Até porque, pedir ajuda a quem, quando não se tem nada?


Acho que só não acabo com todo o meu sofrimento por covardia. Ou talvez pelo desejo de simplesmente desaparecer no mundo, sumir do contato humano, apagar-me aos poucos.
Ninguém merece meus sentimentos, minhas fraquezas, meu jeito intenso de sentir. Ninguém merece o que se esconde na minha mente, no meu coração, nem essas lágrimas contidas enquanto escrevo.


Não sei por quanto tempo ainda suportarei viver em um mundo que me odeia por sentir e falar — e me odeia do mesmo jeito por sentir e permanecer calado. No fundo, o que importa é odiar tudo aquilo que eu sou e tudo o que represento.


Minhas lutas não importam. Minhas dores não importam. Nada do que diz respeito à pessoa que eu sou importa.
Posso desativar todas as minhas redes sociais, desaparecer dos olhos e do convívio de todos — e isso não fará a menor diferença. Ninguém pergunta se estou bem. Ninguém oferece um abraço.


Sabem apenas apontar o dedo e repetir que sou a pior pessoa do mundo pelo simples fato de existir sendo eu.
Hoje tomei a decisão de me tornar inacessível. Não apenas às pessoas, mas também ao que havia de mais nobre dentro de mim.
Quem sabe assim, morrendo aos poucos, tudo finalmente acabe — e eu nem perceba.

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