Juiz, júri e carrasco!

Eu sou meu próprio juiz, júri e carrasco. Eu mesmo me julgo e me condeno em todas as circunstâncias da vida. Sou meu próprio inimigo; acabo me punindo antes mesmo de fazer algo. Ninguém aponta mais o dedo para mim do que eu. Estou o tempo todo pensando nos outros — no que vão pensar, achar e dizer… Mas a verdade é que sou insignificante para todos. Ninguém irá se importar com o que eu faço, então por que tenho tanto medo de viver assim?

Por que não me deixo ser livre e feliz, sem colocar empecilhos em todas as esferas da minha vida? Por ser sempre esquecido, julgado, a última opção, comecei a achar isso normal — e a fazer o mesmo comigo. Como alguém vai me amar se nem eu me amo? Como vou me amar se ninguém me ama?

O tempo corre contra mim, mas, mesmo sabendo disso, não consigo deixar de ser cruel comigo mesmo. Não sei dizer se o mundo me enlouqueceu ou se fui eu quem enlouqueceu o mundo. Apenas aceito a apatia de viver o caos dos próprios medos e inseguranças.

Hoje eu quis chorar, quis abrigo, quis mudar tudo em mim e tudo no mundo. Hoje eu quis ser menos frio, quis ser mais profundo… Mas como posso ser alguma coisa se não sou capaz de sentir nada? Hoje eu nem quis sair do meu quarto, nem fui capaz de fazer algo por mim. Como seria capaz de conquistar os outros — ou o mundo?

Talvez meu destino seja sempre ser meu próprio carrasco, e fazer com que meu coração seja destruído primeiro por mim, e não pelo mundo, seja a única forma que encontrei de ser gentil comigo mesmo.

Dia Cinzento!

Hoje é um dia cinza e nublado, com chuvas intensas. Mas, para mim, todos os dias são assim. Faz tempo que não enxergo o céu azul ou aquela sensação de paz que um pôr do sol no Farol da Barra pode trazer.
Hoje, pensei em desistir mais uma vez — mas resolvi escrever.

Como pode uma pessoa ter a vida inteira pela frente e, ao mesmo tempo, não ver futuro?
Eu me sinto assim: vazio. Um vazio que me corrói por dentro desde que me entendo por gente. Só agora resolvi colocar isso para fora — e, mesmo assim, me sinto pior. Culpado.

Afinal, eu tenho um teto, dois braços, duas pernas e a possibilidade de mudar de vida amanhã, de um milagre acontecer e todos os problemas simplesmente irem embora.
Mas por que não sinto essa possibilidade?
Por que sinto que fracassei, mesmo sem ter tentado nada?

De uma coisa eu sei: hoje decidi que não pedirei mais ajuda. Vou me deixar afundar ou tentar nadar sozinho.
Todo mundo tem problemas; eu não sou especial nisso.
Então, por que deveria chamar a atenção do mundo para a minha dor?
Minha dor não é maior que a dos outros. Eu não sou especial assim.

Afinal, sou só mais um — mais um vivendo um dia cinzento dentro da solidão da depressão, com problemas familiares e financeiros, olhando para os lados e achando que não há saída.
Quantos não se sentem assim também?
Eu não sou especial. Minha dor não é torturante.

Aliás, ela está aqui há tanto tempo que já se tornou parte de mim.
Mas, como eu disse: hoje pensei em desistir, mas resolvi escrever.
Amanhã? Não sei.
Só sei que minha vida parou de fazer sentido há muito tempo, e esse fio de fé e esperança a que me apego a cada dia fica menor.

Eu não quero magoar as pessoas — embora eu tenha poucas para magoar.
Sei que serei uma lembrança pequena, porém intensa, para alguns.
Talvez me lembrem como o “coitado” — aquele que sabia chegar e sabia sair, sempre calado, sempre solitário, sempre sozinho.

Aquele que ninguém odeia, mas que ninguém ama.
Que não chama atenção, mas também não passa totalmente despercebido.
Acho que, no fim, penso mais nos outros do que em mim — e, de tanto fazer isso, chegará o momento em que não pensarei em nada.

Já não me importo mais.
Morri tantas vezes no meu quarto, calado, sozinho…
Assim como já desisti tantas vezes, gritando por socorro, tentando chamar atenção.

No final, não faz diferença: calado ou gritando, enquanto esse vazio permanecer, serei apenas um casco.
Um casco oco, que vive dias nublados todos os dias, simplesmente porque já não consegue enxergar cores na vida.

Depressão!

Como lutar contra um inimigo que é invisível? Que chega tomando conta da sua vida, te fazendo parar de fazer tudo aquilo de que gosta e te faz acreditar que tudo ao seu redor não faz mais sentido?

Como lutar contra aquilo que você não enxerga, mas sente? E que, por mais que você busque ajuda, faz você acreditar que as pessoas não se importam com você e que tudo o que fez até agora foi em vão?

Esse inimigo invisível chamado depressão, que um dia toma conta da sua risada, no outro toma conta das suas atitudes, e, quando você percebe, já está quase levando sua vida.

É difícil lutar contra ele, por mais que você busque ajuda. Ninguém entende. Ontem eu era capaz de ler todos os livros do mundo, de escrever mais que Shakespeare, de jogar futebol melhor que o Ronaldo, de ser mais criança que qualquer menino chamado Enzo e, talvez, de ser mais amor que o Fábio Júnior, que casou sete vezes. Ontem eu seria capaz das coisas mais intensas: de fazer amizade com qualquer bêbado na rua, de voltar para casa com o dia amanhecendo, me sentindo como um adolescente, mesmo já passando dos trinta anos.

Ontem eu seria capaz. Mas hoje, não. Hoje eu não queria levantar da cama, não queria tomar banho, não queria comer, não queria que o mundo existisse, não queria respirar, não queria dormir, não queria acordar, não queria a luz. Não seria capaz de amar ninguém… nem a mim mesmo.

Às vezes me pergunto: a vida faz sentido? Às vezes me pergunto: o que eu escrevo faz sentido? Sabe quando você acredita que se perdeu tanto, que o mundo ficou louco, te deixou louco e ninguém percebeu isso?

Passei a minha vida inteira me sentindo assim e pensando: um dia vou pedir ajuda, irei me tratar e o mundo fará com que todos esses sentimentos desapareçam. Hoje eu me trato, e descobri que não é bem assim. Hoje, mesmo tomando remédio, mesmo gritando para todas as pessoas do meu dia a dia, do meu passado, do meu presente, ao meu redor — talvez gritando para todas as pessoas do mundo — descobri que ninguém é capaz de me ouvir.

Ontem eu sofri calado e venci. Hoje eu estou sofrendo e escrevendo, mas estou vencendo também. Amanhã… já não sei. Talvez o mundo estivesse certo o tempo todo, e eu tenha nascido para ser triste. Talvez aquele que ontem era capaz de casar com sete mulheres e ser tão amor quanto o Fábio Júnior, no final, nunca tenha existido e nunca tenha sido amor para ninguém.

 A desumanização do diferente.


A desumanização de pessoas transgênero é uma realidade persistente e alarmante no tecido social. Apesar dos avanços legislativos e do crescimento da visibilidade trans em alguns espaços públicos, a transfobia estrutural ainda se manifesta de maneira profunda e cotidiana, refletindo-se em exclusões, violências simbólicas e físicas, e na negação sistemática da dignidade humana dessas pessoas.

No campo social, a desumanização ocorre de formas diversas. A mais evidente está na violência direta – verbal, psicológica e física – sofrida por pessoas trans em espaços públicos e privados. Mas toda essa discriminação, invisibilidade e exclusão social não é um desafio novo para as pessoas trans, temos várias histórias de quem sofreu ainda mais enfrentando uma sociedade conservadora marcada por preconceito e violência.


Hoje vamos abordar a correlação entre Boys Don’t Cry e “Balada de Gisberta”.
Tanto o filme Boys Don’t Cry como a música “Balada de Gisberta” são obras de arte que têm como ponto de partida histórias reais de pessoas trans que sofreram brutal violência e discriminação. Cada uma, à sua maneira, denuncia a intolerância e a exclusão social, colocando em foco o preconceito enraizado na sociedade e o sofrimento daqueles que desafiam normas rígidas de identidade de género.

Ambas as obras são profundamente emocionais e apelam à empatia. Boys Don’t Cry utiliza uma abordagem cinematográfica intimista e angustiante, revelando as vulnerabilidades de Brandon e a brutalidade que enfrentou. O filme não poupa o espectador à violência, precisamente para que se compreenda a gravidade da transfobia.

Por sua vez, “Balada de Gisberta” opta por um tom lírico e triste. A música é construída como uma homenagem, onde se ouve a voz da dor e da perda, mas também uma tentativa de redenção simbólica. A frase “jazia Gisberta” ecoa como um grito silencioso contra a indiferença, evocando compaixão e memória.

Ambas as histórias revelam como a discriminação de género se cruza com outras formas de exclusão. Brandon era jovem, pobre, e vivia numa comunidade conservadora. Gisberta era trans, sem-abrigo, estrangeira e portadora de HIV — uma figura marginalizada em múltiplos níveis.

Essas camadas de vulnerabilidade tornam os casos ainda mais trágicos, pois mostram como a sociedade não apenas rejeita o que é diferente, mas permite — e muitas vezes legitima — a violência contra os mais frágeis. Tanto o filme quanto a canção colocam o espectador/auditor diante da responsabilidade de refletir sobre essa realidade.

Boys Don’t Cry e “Balada de Gisberta” são mais do que retratos de tragédias — são formas de resistência artística. Mostram histórias reais de violência transfóbica, ambas denunciam o preconceito estrutural e convidam à reflexão. São também homenagens póstumas que resgatam a humanidade das vítimas, contra a tentativa de apagamento das suas existências, lembrando-nos que, por trás das estatísticas de violência, existem pessoas reais, com sonhos, medos e desejos — como Brandon, como Gisberta.

O meu egoísmo tão egoísta de ser homem trans e tentar amar.

A solidão às vezes me sufoca e há dias em que o silêncio faz mais barulho do que qualquer multidão. É estranho desejar tanto algo tão simples: ser escolhido, mas na vida real ser um homem trans à procura de conexão emocional e física pode parecer um labirinto emocional sem saída — cheio de muros invisíveis, silêncios desconfortáveis e rejeições disfarçadas de “preferência”.


Já tentei fingir que não me importo, mas a solidão tem um jeito sádico de nos fazer questionar o nosso valor. E assim entramos num ciclo perverso: cada rejeição, cada afastamento sem explicação, vai corroendo muito além do ego e afeta a nossa auto estima, a autoconfiança e, inevitavelmente, a saúde mental.

A masculinidade trans vem quase sempre com uma batalha silenciosa com o próprio corpo. E quando somamos isso à rejeição constante no campo amoroso, o resultado é brutal: muitos de nós começamos a questionar se merecemos ser amados como somos. Começamos a pensar que independente daquilo que nos tornamos vivemos numa narrativa de desejo que nunca foi pensada para incluir-nos.

Criar conexões emocionais e físicas nessas condições é conviver com a constante sensação de que, mesmo quando me amam, não é por inteiro, como se eu fosse sempre quase. Quase o suficiente. Quase digno. Quase amável. E isso não é só sobre querer afeto, é sobre tentar recebê-lo sem anular partes essenciais de quem eu sou.

Sou parte de uma minoria — e isso pesa. No corpo, no peito, nas relações. Cresci aprendendo a me observar demais, a me medir antes de existir. Porque um passo fora da linha pode ser o suficiente para que alguém me descarte. Como já fizeram. Como ainda fazem.

Ser parte de uma minoria, às vezes, é ser treinado para se acostumar com a ausência. Com o quase e isso machuca de um jeito que não se explica fácil. Porque não é só solidão. É o eco de anos tentando me encaixar num lugar onde ninguém nunca me reservou espaço.

E mesmo assim — mesmo cansado, mesmo inseguro, mesmo me fechando cada vez mais — ainda tem uma parte de mim que insiste. Que espera. Na esperança que homens trans também recebam carinho, toque, presença, reciprocidade. Porque queremos sentir que podemos ser amados sem rodapé explicativo, sem termos que convencer ninguém de que valemos a pena e sonhando com o dia em que alguém vai olhar para mim, sem medo, e dizer: é aqui que eu quero ficar.




(Re)nascimento

Renascimento: substantivo masculino, ato ou efeito de renascer, renascença. Nova vida, nova existência.

Há dois anos eu renasci para a sociedade, mesmo sendo aquele que eu já era desde quando nasci. Como eu posso explicar que o que eu sou hoje é um sonho que eu tenho desde menino, mesmo tão longe do ideal? São dois anos não apenas de mudanças físicas e comportamentais, mas também de sonhos se tornando realidade e de outros surgindo. Não vou mentir e afirmar que tudo são rosas, que todos os meus problemas acabaram e que hoje eu sou a pessoa mais feliz do mundo, porque seria hipocrisia e mentira, afinal a gente vive no país que mais mata pessoas transexuais no mundo.

O único intuito desse texto é reafirmar mesmo a minha existência, não para os outros, mas para aquele menino que desde criança cresceu sendo julgado por ser ”estranho” e aprendeu aos trancos e barrancos a ser forte e se descobrir sozinho. Eu ainda continuo me descobrindo, assim como todas as outras pessoas do mundo, a gente vive em constante mudança – ou assim deveria ser -.

Às vezes é difícil falar sobre nós mesmos, e sobre algo que a gente acaba vivendo mais do que raciocinando sobre. E não vou mentir para vocês, muitas vezes ainda é difícil me reconhecer no espelho, porque sei que a mudança foi drástica e a gente só acaba se dando conta com as comparações. Minha voz não é a mesma, meu rosto não é o mesmo, meu corpo não é o mesmo, minha personalidade não é a mesma e nem a sociedade é a mesma pra mim. E graças a Deus por isso.

Hoje eu estou me descobrindo e construindo, e mais que isso estou criando minha trajetória, comemorando pequenas vitórias como essa e sendo resistência por todos aqueles que não conseguiram. Diariamente, em uma rotina que nem sempre é fácil, mas que a cada dia que passa me faz ter mais certeza que aquela criança que era incompreendida sempre terá orgulho do homem que se tornou.

Entre a loucura e o vazio.

A reflexão sobre a vida sempre acaba nos mostrando que viver é uma eterna projeção daquilo que sonhamos. Dessa forma, no exato momento em que exploramos o nosso íntimo, todas as nossas projeções, tudo aquilo que existia de mais concreto se torna um nada.

Aprender a lidar com o vazio e a falta de saber o que se sente, sempre vai ser uma das coisas mais dolorosas que alguém pode passar. É exatamente nesse momento que você descobre que pior do que morrer sozinho, é viver sozinho. Você começa a enxergar a morte como um momento rápido e passageiro, e a vida como algo que você acaba sempre revivendo a mesma solidão.

Não sei dizer o exato momento em que acabei me perdendo. Aliás, para falar a verdade eu nem me lembro quem um dia eu fui e muito menos quem eu quero ser. Parece que minha individualidade deixou de existir juntamente com os meus sonhos.

A ausência de pertencimento me fez ter refúgio na minha própria solidão. Acho que de tanto acreditar que tudo era momentâneo e que as coisas se encaixariam somente por eu acreditar que isso fosse acontecer, eu acabei me deixando levar como um sonhador.

Foram tantos planos e sonhos de mudança, sempre imaginando que quando eu me encaixasse perante a sociedade todos os meus medos iriam deixar de existir. Todas as mudanças físicas, não trouxeram os meus sonhos junto, mas aumentaram as minhas inseguranças e a minha certeza de que o erro sempre vai ser apenas eu ser eu.

Todavia, não me arrependo de nada. Talvez o vazio que eu sinto seja reflexo da sociedade vazia também.

As horas estão passando, os dias estão passando, os anos estão passando e eu vejo minha vida indo embora sem ter conquistado nada. E tenho a certeza que pior que não conquistar, é não viver. E eu sei que não terei amigos, não terei amores, não construirei família, não serei o orgulho de nenhum familiar meu e serei uma memória distante que se apagará no mesmo momento em que deixarei de existir. Não sei dizer se isso me dói como antes, assim como não sei dizer se isso vai deixar de ser um incômodo dentro do meu peito um dia. Só queria ter tido a oportunidade de existir pelo menos um dia, sem esse sentimento que fui abandonado no exato momento em que nasci.

A solidão dentro da mudança.

Quando se fala de solidão, ninguém enxerga o abandono que ocorre durante a transição de ser o que as pessoas esperam de você, e ser quem realmente você é. Falo isso como a pessoa solitária que se tornou ainda mais sozinha desde que se encontrou.

Ser homem trans é muito difícil, não falo só pelos processos dentro da gente, mas também das mudanças que ocorre ao nosso redor. Desde que me entendi homem trans, menos amado eu me sinto e mais abandonado eu fico. Me vejo muito a margem da sociedade, porque não me vejo mais fazendo parte de nenhum ciclo social. A gente até ouve falar da solidão e do processo de abandono que ocorre com as pessoas trans, mas é mais difícil e doloroso sofrer isso na pele.

Muitas vezes me pego me perguntando se as pessoas tem vergonha de mim ou é somente coisa da minha cabeça. Sabe quando pequenas coisas viram turbilhões? É assim que eu me sinto, qualquer atitude/movimento das pessoas, viram um turbilhão de inseguranças em mim. Às vezes eu acho que eu me maltrato demais, às vezes eu acho que ninguém enxerga aquilo que não existe quando se trata de preconceito. Então porque é tão difícil amar ou fazer parte da vida de uma pessoa trans? Ou realmente o problema sou eu? Porque muitas vezes eu me vejo em situações, que transbordam coisas dentro de mim que me fazem acreditar que era melhor eu não existir. Sei que as pessoas não entendem muitas vezes os processos que as pessoas trans passam, mas eu continuo sendo uma pessoa normal, só diferente das outras como qualquer outro.

Não sei se esse desabafo vai fazer sentido, mas é como eu me sinto. Desde que me entendi trans, não conheci mas ninguém que esteve do meu lado, seja como amigo ou amorosamente. Sempre passei por vários abandonos, mas durante esse processo de entendimento de quem eu sou, eles se tornaram mais fortes e mais constantes. Eu sei que ninguém é obrigado a fazer parte da vida de alguém, mas é muito doloroso você observar que as pessoas nem se quer se permitem em te conhecer, como se você fosse um doente, como se você não fosse bom o suficiente ou merecedor de algo.

Por muito tempo segurei esse desabafo, na verdade, nos últimos quatro anos por pensar que talvez seria coisa da minha cabeça. Mas não, eu não estou doido… Há sim um preconceito velado disfarçado ou escancarado em cada dia que eu não conheci ninguém durante a faculdade durante esses quatro anos, ou nunca conheci ninguém de Salvador durante todos esses quatro anos , ou nunca tive uma vida amorosa ou alguém que me assumiu durante a minha vida inteira, ou nunca vivi mais que a maioria das coisas que casais fazem, ou nunca tive um amigo para conversar ou sair, nunca fui convidado para sair com ninguém, ou todas as pessoas que conheci de alguma maneira durante toda a minha vida, me viraram as costas ou sumiram principalmente durante esse tempo. Então sim, eu sei o que eu passei e passo até chegar ao ponto de escrever cada palavra desse texto. Não sei se vou desistir em algum momento, eu até agora tentei ser forte. Não sei se alguém irá ler isso um dia, mas se isso acontecer: tenham mais carinho com as pessoas que lutam para ser o que são, e que passam por cima dessa sociedade maldita para tentar ter o mínimo de felicidade.

(Norma)lidade

Normalidade: Substantivo feminino, qualidade do que é normal, característica do que é permitido, aceito pelo sociedade.

Como me descobrir fora da normalidade? Como ser capaz de mostrar minhas angústias e amar minhas imperfeições não fazendo parte do padrão? Como construir meu eu, sem ser contaminado com a imagem daquilo que eu deveria ser? Como construir minha masculinidade sem me contaminar pelo cisgênero? Afinal, seria eu, menos homem que qualquer outro na face dessa terra, por ser construído na base da dúvida?

Pela primeira vez sinto a frequência do meu corpo e da minha mente sendo uma só. Essa conexão deveria ser considerada natural, mas ela nasce em mim de maneira sintética. Não seria o corpo reflexo da criatura? Ingenuidade a minha. Ainda estou aprendendo a me entender como homem sem reproduzir essa masculinidade tóxica. Ainda estou aprendendo a amar minhas curvas, e aceitar os meus traços afeminados como parte do homem que eu sou. O corpo é uma descoberta, estou fazendo a minha, e essa construção se torna um caminho sem volta. Minha natureza não me permite mais ser reprimido, e depois de anos sendo limitado, meu único desejo é expandir. Estou aprendendo a ressignificar o meu corpo para ter minha paz.

Transfundir, é um verbo!

Transfundir, verbo pronominal que significa: transformar-se, tornar-se outro: já não é o mesmo homem; transfundiu-se.

Não me recordo do momento exato em que eu quis fazer desse significado a minha vida. Afinal, quem nunca quis se transformar? Tornar-se outro? Ainda mais quando não fazemos parte do sistema. E eu, nunca fiz.

Sempre que tento puxar minhas memórias afetivas para saber o momento exato que percebi ser um menino, minha cabeça nunca me leva para quatro anos atrás, que foi quando eu descobri mais profundamente sobre a transexualidade. Acho que é normal das pessoas trans acabarem buscando indícios na infância para ter mais relevância naquilo que sentimos. Isso acaba sendo um caminho sem volta, mas necessário. Quando você se der conta, tem mais memórias caminhando dentro de você e buscando um jeito de sair do que você imaginava. Lembro como hoje, a memória de quando eu tinha uns sete anos e chorei muito porque eu queria um carrinho, e eu sempre pedia para as pessoas e ninguém me atendia. Até que um dia meu tio chegou com um pequeno caminhão de plástico e me deu de presente – acho que aquele foi um dos momentos mais marcantes da minha vida – porque eu, logo eu, péssimo de memória e bom com datas fui lembrar justamente daquele momento. Bom, eu não sei. Assim como não sei porque nunca gostei de bonecas, e sempre chorava porque queria brincar de bola ou de gude, e morria de inveja quando os meninos da rua soltavam pipas e eu ficava olhando sem poder fazer o mesmo. Lembro que das poucas vezes que eu tenho lembranças brincando de boneca, eu era o pai delas e o marido das minhas primas. Isso é engraçado, porque eu sempre olhei para todas as lembranças que eu tenho com vergonha, com medo de alguém saber o que eu guardava no meu passado e nas minhas memórias e pensassem que eu era louco.

Eu cresci sendo a garota esquisita da escola, a pessoa de figura masculina que todo mundo tem certeza que é sapatão por não performar a feminilidade. Durante meu ensino fundamental, foi um dos períodos que a escola foi mais cruel comigo. Eu sempre era zombado, sempre sofri perseguições e ganhei apelidos, por muitos momentos quis mudar e tentar me encaixar para não sofrer mais aquilo, e assim fiz até o final do ensino médio. Não me orgulho de muita coisa feita, mas se ser LGBT hoje já é difícil, imagina há quinze anos atrás, quando eu não sabia nem que alguém seria capaz de me entender um dia. Mas a escola nunca foi o lugar mais cruel para mim, os meus maiores traumas sempre foram familiares. Eu posso afirmar que nunca entendi porque eu sempre fui perseguido dentro da minha própria família, e eles sempre fizeram de tudo para me destruir de alguma maneira. Por muito tempo eu me senti culpado por não fazer parte do sistema e não ser igual a todo mundo. A gente sempre acaba se culpando por ser quem a gente é, ainda mais quando se é criança e o mundo inteiro te diz o quanto você está errado.

Hoje em dia às vezes ainda acabo me culpando baixinho em silêncio na tentativa de justificar os atos alheios. Mas seria eu o culpado do preconceito do mundo e da ideia de que todos os corpos são iguais? Por nascermos com uma ideia já formada daquilo que somos, daquilo que vamos amar e como vamos agir. Seria eu o culpado por não seguir isso? É como se não houvesse sujeito, somos todos programados. O sistema tenta nos moldar, e ser trans é fazer parte de uma rebelião. Iniciei o meu processo para tornar-se outro, mas na verdade esse outro é exatamente quem eu sempre fui.